Joãozinho era conhecido em toda a vila como o menino mais esperto e arteiro de todos os arredores. Com seu chapéu de palha meio torto, jardineira azul desbotada e os pés sempre ligeiros, ele era o orgulho e a dor de cabeça de sua mãe, Dona Zefa.
Naquela manhã, o sol brilhava forte, e o campo parecia mais verde que o normal. As flores coloridas estavam abertas, os passarinhos cantavam em coro, e Joãozinho, com seu sorriso travesso, estava pronto para mais um dia cheio de aventuras.
— Ô, Joãozinho, vê se não apronta, hein! — gritou Dona Zefa da varanda da casa.
Ele, já longe, apenas respondeu: — Pode deixar, mãe! Só vou ali dar uma olhadinha nas galinhas!
Mas, é claro, “dar uma olhadinha” nunca era só isso. Logo que saiu do quintal, Joãozinho enfiou-se pelo caminho de terra que levava ao campo florido. Era seu lugar preferido. O cheiro de mato, o barulho das folhas balançando e o balé das borboletas no ar o faziam sentir-se o rei daquele pedaço.
Pelo caminho, Joãozinho começou a colher flores para fazer um buquê. Mas não era para a mãe, não! Ele tinha outra ideia. Ao passar pela cerca da fazenda do Seu Tonico, viu o galo velho, todo pomposo, andando no terreiro. Joãozinho riu sozinho.
— Esse galo vai ganhar uma coroa hoje! — disse ele, já arquitetando sua travessura.
Com as flores na mão, Joãozinho se esgueirou até o galinheiro e, com muito cuidado para não assustar as galinhas, conseguiu pegar o galo. Ele amarrou algumas flores ao redor do pescoço do bicho e colocou uma margarida em cima da cabeça dele.
— Agora sim, tá parecendo o rei do terreiro! — riu.
Soltou o galo, que saiu todo desajeitado, e logo as galinhas começaram a cacarejar. Seu Tonico apareceu na varanda e gritou:
— Ô, moleque! É você que tá mexendo no meu galinheiro?
Joãozinho deu no pé. Correu mais rápido que coelho assustado e foi se esconder no meio do mato. Lá, encontrou seu cachorro, Bolinha, que estava sempre disposto a acompanhá-lo nas aventuras.
— Bora, Bolinha! Ainda tem muita coisa pra gente fazer hoje.
Joãozinho e Bolinha seguiram para o riacho que cortava o campo. Era o lugar onde ele gostava de pescar lambaris, mas naquele dia, pescar estava fora de seus planos. Ele tinha algo mais divertido em mente. Pegou umas folhas grandes e começou a fazer barquinhos. Depois de alguns minutos, já tinha uma frota completa.
— Vai, Bolinha, ajuda aí! Empurra o barco pra água.
O cachorro, feliz, balançava o rabo e corria de um lado para o outro. Joãozinho colocou os barquinhos no riacho e os viu descerem a correnteza. Alguns atolaram nas pedras, outros continuaram flutuando. Mas um, o maior de todos, chamou sua atenção. Ele colocou uma flor em cima dele e disse:
— Esse vai ser o barco do capitão Joãozinho! Vai longe, viu, Bolinha?
Quando se cansou do riacho, ele resolveu explorar o pomar do campo. Era temporada de manga, e Joãozinho adorava subir nas árvores para colher as mais amarelinhas. Subiu em uma mangueira com a agilidade de quem já conhecia cada galho. Lá de cima, avistou o vizinho, Pedrinho, que vinha pelo caminho.
— Ô, Pedrinho! — gritou Joãozinho lá do alto. — Tá com fome?
— Sempre! — respondeu Pedrinho, já rindo.
Joãozinho jogou uma manga para o amigo, que pegou no ar. Os dois sentaram debaixo da árvore, com Bolinha ao lado, e devoraram as mangas, sujando as mãos e o rosto.
— E agora, o que a gente vai fazer? — perguntou Pedrinho, lambendo os dedos.
— Bora na plantação de milho do Seu Zeca. Tô com uma ideia boa! — respondeu Joãozinho, já se levantando.
Os dois correram até a plantação. Joãozinho pegou algumas espigas e explicou seu plano: fazer bonecos de milho. Com as palhas, criaram “roupas,” e usaram pedaços de gravetos para braços e pernas.
— Esse aqui vai ser o Coronel Milhudo! — disse Joãozinho, mostrando sua criação.
Os dois riram tanto que até Bolinha começou a latir, como se estivesse rindo também. Quando terminaram, deixaram os bonecos enfileirados no meio do milharal, como se fosse um exército. Joãozinho já podia imaginar a reação do Seu Zeca ao ver aquilo.
Com o sol já se pondo, Joãozinho e Pedrinho voltaram para casa, cansados, mas felizes. Quando chegaram, Dona Zefa já estava na porta, com as mãos na cintura.
— E aí, Joãozinho, o que você aprontou hoje?
Ele tentou fazer cara de inocente, mas sua roupa suja de lama e os pedaços de palha presos na jardineira o entregaram.
— Ah, nada demais, mãe. Só tava brincando com o Bolinha no campo.
Dona Zefa suspirou, já sabendo que isso significava muita coisa. Mas, no fundo, ela sabia que as travessuras de Joãozinho faziam parte do que ele era: um menino do campo, cheio de vida, criatividade e, claro, muita arte.
E assim terminou mais um dia nas aventuras de Joãozinho, o menino mais malino da região, que transformava cada canto do campo em palco para suas travessuras.